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[Entrevista] :papercutz «Persiste uma vontade de recriarmo-nos»

Bruno Miguel, membro do projeto :papercutz concedeu-nos uma entrevista onde nos falou de “King Ruiner”, terceiro álbum a ser editado em breve.

Bruno Miguel e Catarina Miranda

:Papercutz

:papercutz – «É um terceiro álbum, e temos já algum repertório mas persiste uma vontade de recriarmo-nos»

Encontram-se a preparar o terceiro álbum de originais, o que podemos esperar deste novo disco?
Como princípio, em cada álbum novo, tento incorporar elementos que possam retratar o conceito que unifica as letras, e este não é excepção. A dificuldade é que estes possam coexistir com outras características que alguns já reconhecem associados à nossa música. Ou seja, existe um olhar retrospetivo, pois como mencionas é um terceiro álbum, e temos já algum repertório mas persiste uma vontade de recriarmo-nos. Não conseguiria fazer as coisas doutra forma porque sou naturalmente alguém insatisfeito quando não sinto evolução, embora reconheça que isso possa tornar mais difícil manter ouvintes que se tenham ligado a um ou outro tema em particular. É um risco que estou disposto a aceitar. Além disso existe um elemento novo nas gravações, a voz principal do álbum é da Catarina e decidi que juntos iríamos tentar criar algo diferente de qualquer um dos nossos projetos — :papercutz e Emmy Curl — mas aproveitando as características de cada um. Ela liga-se aos temas de uma forma mais emocional e tem uma voz naturalmente melódica e etérea, eu tendo para um processo mais racional criando arranjos com alguma densidade e força, e penso que acabamos por encontrar um equilíbrio interessante. Assim e como forma de sonorizar a história de superação retratada na narrativa do álbum, um dos primeiros elementos que me lembrei foi a força que encontro em registos vocais de música raiz tradicional, muitas vezes porque esta é o resultado de tempos de sobrevivência.

Foquei-me em música Africana, porque foram os primeiros discos que me surgiram como som de fundo, porque serão os precursores da maioria de outros registos tradicionais baseados em coros vocais, e pela riqueza harmónica que contemplam. O que fiz foi partilhar esses exemplos com a Catarina e procuramos casar a tradição com modernidade. A ideia foi criar canções, umas mais diretas, outras nem tanto, sendo que iríamos diluir pelos vários os temas essa musicalidade. No fim de contas, o que sempre procurei nos últimos tempos, e que se acentua neste novo trabalho, passa por criar canções, nada muito mais que isso. Estas combinam em si vários mundos em algo próprio e que espero eu, interpelam o ouvinte a conhecer ainda melhor o que temos para mostrar. Isso verifica-se ainda mais em termos instrumentais. O tema de avanço ‘Trust/Surrender’ é uma pequena amostra do mais recente trabalho, uma que achamos seria uma forma de entrada mas ainda temos muito mais por revelar.

:papercutz – «Quem já ouviu alguns dos temas diz que é nosso álbum mais pop até ao momento»

Comparativamente aos anteriores discos, que diferenças poderemos escutar neste novo trabalho?
Existem características que não pensei em antemão mas sinto agora este trabalho como fruto de instrumentação eletrónica num formato próximo do que temos feito ao vivo. Talvez influenciado pelos palcos onde temos tocado e por algumas experiências que passei como produtor em remisturas ou mesmo a Red Bull Music Academy. Tenho dado especial atenção sobretudo ao primeiro fator. Não porque sinto que somos um projeto ao vivo mas porque ultimamente é uma experiência que me devolve algum do sentido da descoberta e que onde possa oferecer uma experiência diferente e única em cada atuação. Colocando-me no lugar de espectador é assim que vejo os meus concertos favoritos, algo que não é replicado e depende do lugar e momento que acontece. O processo de gravação passou pela utilização dos instrumentos que fui adquirindo para o estúdio e ao vivo, porque queria algo utilizar elementos com uma alma própria que reconheço e que facilitasse algumas das ideias que tinha em termos estéticos: os sintetizadores analógicos, a guitarra elétrica, os pads eletrónicos, percussão acústica, os pedais de efeitos… o computador foi relegado para um processo não de síntese mas de processamento. Por exemplo, e como tenho um gosto especial por música ambiente, basta conhecer a nossa edição ‘Do Outro Lado do Espelho’ (Lylac Ambient Reworks), muitas das texturas presentes são criadas da voz da catarina ou de pequeno trechos instrumentais captados e mais tarde processados. Penso que esse será um exemplo da modernidade que mencionei anteriormente. Outro, passa por interpretar ritmos em música urbana e de dança mas com elementos percussão tradicional e polirritmia.

Este novo álbum partilha algo dos anteriores, alguma da melodia mais luminosa do ‘Lylac’, a percussão de raiz folk e tribal e a sonoridade por vezes mais sombria do ‘The Blur Between Us’. Sendo um álbum em que a personagem retratada passa por momentos de esperança e outros de desalento, acho que faz sentido que assim seja. Outra questão passa pela produção, volta a ser totalmente por minha. Na altura do ‘The Blur Between Us’ senti que precisava de trabalhar com outra pessoa nesse aspeto e tive a felicidade de poder aprender bastante em estúdio com o Chris (Coady). Agora queria pôr em prática alguma dos processos que apreendi e acompanhar o álbum desde a gravação às misturas e produção. Contei como no ‘The Blur Between Us’ com o Ricardo, o nosso técnico ao vivo, nas gravações de voz porque é uma questão na qual confio nele na totalidade. Apenas a masterização é feita por alguém externo ao grupo, o Sam John porque seria bom ter mais um par de ouvidos na fase final de alguém que não nos conhecia até o momento, de forma a ter uma opinião mais subjetiva.
Quem já ouviu alguns dos temas diz que é nosso álbum mais pop até ao momento mas penso que isso foi algo que surgiu naturalmente, talvez novamente pela presença da Catarina. Se isso quer dizer que é um trabalho que pode ser apreciado por ainda mais pessoas, ainda melhor.

:papercutz – «Somos uma banda que serve canções de base eletrónica ocidental mas com especiarias de outras geografias»

E de que influências se serviram para a composição dos novos temas?
Para além dos registos de música tradicional Africana que mencionei, muitos da maravilha musical que é o Mali, tenho desde alguns anos um enorme gosto pela Pop New Age japonesa (basta ouvir alguns dos motivos melódicos do ’Lylac’). Penso que começou com o David Sylvian e o grupo Japan. Este serviu como porta de entrada para conhecer Sakamoto e Yellow Magic Orchestra e a editora Yen Records. Segui para projetos mais experimentais como Mariah, Hiroshi Yoshimura ou Midori Takada. É uma música muito rica em termos timbre e musicalmente senti que funcionava bem com outra de raiz tribal, além de que partilham instrumentos como a marimba, que é recorrente na minha escrita desde o primeiro álbum. A ideia seria casar estas sonoridades mais exóticas (embora não concorde totalmente com o termo porque a distância a meios musicais tornou-se algo relativo com a Internet) com arranjos e instrumentação atuais. Numa alusão culinária, eu diria que somos uma banda que serve canções de base eletrónica ocidental mas com especiarias de outras geografias.

“King Ruiner” será o nome do novo álbum, correto? Qual a história por detrás do nome do disco?
Sim. O nome do álbum surge numa letra em que a personagem principal se apercebe do ponto em que se encontra ‘King Ruiner I have become’. Uma antítese aparente mas quando vivi nos Estados Unidos percebi que o termo ‘King’ (influenciado pela cultura de rua) era muito utilizado para retratar alguém acima de qualquer adversidade. ‘Ruiner’ da ideia de sonhos e aspirações desfeitos. E o álbum retrata precisamente alguém sufocado pelos acontecimentos, e por vezes até com algum estranho gosto na sua aparente queda mas que percebe que a única saída é a mudança e a única possível é a dele.

:papercutz – «Esses palcos são sobretudo formas de aprendizagem por nos colocam perante outros públicos»

Teem atuado em festivais entre Ásia e Estados Unidos, marcaram presença também no festival Eurosonic na Holanda, em breve irão regressar ao South by Southwest (SXSW), onde atuaram em 2012. Pergunto; como tem sido partilhar a vossa música em palcos internacionais?
A nossa internacionalizações foi que algo que aconteceu naturalmente. Inicialmente o interesse na música que fazia veio de fora, tivemos pouco em Portugal. Com o tempo reconheço que é um caminho que penso fazer todo o sentido para muitas outras bandas Portuguesas, quer sejam apreciadas localmente ou não, porque somos um país pequeno mas de pessoas com horizontes cada vez mais vastos. A grande

:Papercutz - King Ruiner

:papercutz

diferença é que neste momento fazemos as coisa de uma forma mais estruturada, com mais intenção e é bom saber que tanto podemos mostrar as nossas músicas em Portugal como fora, sendo que são experiências diferentes. Esses palcos são sobretudo formas de aprendizagem por nos colocam perante outros públicos e é um desafio enorme para um pequeno grupo do Porto mostrar que tem algo um pouco diferente para oferecer.

Desses concertos que teem feito lá fora há algum concerto em particular que vos tenha marcado?
Vários mas focando-me nos mais recentes, o Eurosonic foi importante para perceber que temos ainda um longo trabalho pela frente, sobretudo relativo a este álbum. Temos que construir um concerto que possa resumir da melhor forma o que esteve por detrás da sua conceção e não me pareceu que essa mensagem passou. Mas são este tipo de experiências que nos faz querer melhorar, ainda por cima porque temos outro elemento como trio, o André, e que nos permite interpretar e expandir o trabalho em estúdio. Não se consegue replicar esse tipo de situações em estúdio ou ensaios.

E a nível nacional, está a ser preparada alguma tour de apresentação do novo álbum? Já há datas marcadas?
Sim mas não chamaria o que estamos a fazer de momento uma tour, pelo menos até ao lançamento do álbum. O que nos interessa por agora é, como mencionei, poder mostrar os novos temas nos lugares mais interessantes que nos surjam e aprender com a reação, de forma a melhor decidir o alinhamento do álbum. Escrevemos vários temas mas nem todos farão parte do resultado final. É algo novo para nós o que estamos a fazer mas quis evitar fazer as coisas como no passado, criar um trabalho fechado e lançá-lo na esperança que fosse totalmente bem interpretado. Queremos sentir estes temas ao vivo e a sua reação. Acho algumas das regras da indústria do passado estão a ser ultrapassadas nesse sentido e ainda bem. Afinal de contas o que interessa é a relação entre a banda e os seus ouvintes, não simplesmente uma agenda.
Quando voltarmos do SXSW temos já dois concertos bastante interessantes e cada um com a sua particularidade. O primeiro será no Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro com quem temos alguma cumplicidade. A particularidade do espaço, em que o público se encontra numa espécie de anfiteatro, levou-nos a considerar com a produção experimentar várias formas de eles presenciarem o concerto e acho que vão gostar do resultado final. A seguir vamos encerrar a 4ª edição do Westway LAB em Guimarães, em que participam vários grupos nacionais e de fora e como tal será interessante o desafio de poder mostrar o novo trabalho nesse contexto, a um público ávido por nova música.

:papercutz – «Que a vontade de continuar a criar persista e que possamos apresentar este trabalho um pouco por todo o mundo»

Para terminar pergunto; o que ambicionam para o futuro de :papercutz?
Que a vontade de continuar a criar persista e que possamos apresentar este trabalho um pouco por todo o mundo. Idealmente, que as pessoas venham a gostar do novo álbum. Os :papercutz estiveram parados durante bastante tempo, reconheço isso. A reação mais recorrente que tenho tido tem sido alguma surpresa, pensavam que o projeto tinha terminado. Na realidade nunca parei de escrever música sendo que apenas alguma dela cabe em :papercutz, a outra há-de vir ao de cima com tempo. Mas essa paragem veio por motivos externos, o facto de que a Catarina que tanto se tinha dedicado a este projeto, iria lançar um novo álbum e a ideia de que tínhamos esgotado o tempo útil do ‘The Blur Between Us’. Não correu como devia, fiquei demasiado focado apenas na escrita de um álbum e quiçá talvez até explique o porquê de não querer seguir outra vez algumas das supostas regras pois achei que ainda podíamos ter continuado com concertos. O tema do principal é em parte inspirado na minha experiência pessoal e na de amigos, na nossa constante procura por fazer algo que nos complete mas que por vezes podemo-nos perder pelo caminho. Eu descobri que estar neste meio pode ser um motivo de alguma angústia mas a essência de tudo, a música, continua a ser o que me move e no qual penso ter algo para contribuir. Isso acabou por me salvar.

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