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Sekai «Quem nos pode dar a oportunidade de nos mostrarmos é também quem nos mantém no lado escuro»

Desconhecido, por agora.

A evolução da música anda de mãos dadas com as inovações tecnológicas ocasionadas pelo Homem. O progresso da ciência (especialmente da informática) trouxe consigo a possibilidade de criar peças completas através de métodos até então inconcebíveis.
Esses métodos, apesar de rebuscados para quem privilegia o toque e textura dos instrumentos, permitiram aprofundar os horizontes da música e inventar novos sons e estilos. A possibilidade de produzir temas completos apenas com um computador abriu caminho para o desenvolvimento da música, nomeadamente da eletrónica.

Dj Sekai - Tiago Salvador

Dj Sekai

 

A comunidade

Tiago Salvador, artisticamente conhecido como Sekai, é um dos membros de uma comunidade underground estranha ao grande público. Esta comunidade pretende quebrar a barreira existente entre a música eletrónica e a tradicional, dando a conhecer géneros emergentes. Ela abrange um grande número de jovens talentos, entre os quais se destacam Alon Mor, Nasko, Ramzoid e Panda Eyes. Este último, de apenas 20 anos, é a vedeta do grupo. O seu repertório compõe-se, até à data, por 95 faixas lançadas, 144 mil seguidores no SoundCloud e músicas publicadas nas maiores promotoras de música eletrónica.

Almejando o que Panda Eyes já conseguiu, Tiago admite que fazer da música a sua vida é o que mais quer, apesar das dificuldades que a Electronica alternativa tem em afirmar-se no seu país: “Em Portugal, embora haja pessoas que aceitam géneros como Dubstep e Future Bass, a grande maioria não atenta naquilo que é produzido e lançado. Isso torna a minha vida muito difícil”.

A unicidade dos temas, refere Sekai, é o que caracteriza os artistas da comunidade. Técnicas desenvolvidas por jovens com idades compreendidas entre os 17 e os 25 anos, estilos e fusões de estilos embrionários, irreverência artística e uma grande vontade de exprimir livremente a sua arte. “Apesar da inevitabilidade de algumas músicas se assemelharem a outras, a comunidade tem variedade e inovação, bem como temas experimentais que nunca ninguém ouviu”. O produtor português acrescenta: “A maneira como os artistas criam os seus sons e melodias marca a diferença. Todos os dias ouço algo novo”.

Sekai — “Quem nos pode dar a oportunidade de nos mostrarmos é também quem nos mantém no lado escuro”

A qualidade está garantida, mas falta fazer chegar as músicas aos ouvidos do público. É essa a grande dificuldade de produtores como Sekai, cuja visibilidade está aquém da pretendida. A razão prende-se, explicita o próprio, “por os artistas menos convencionais não se adaptarem ao estilo genérico a que o público está habituado”. A rádio tem um papel fundamental no adiamento da explosão da música eletrónica alternativa. “Se uma pessoa ligar o rádio, ouvirá apenas aquilo que está nas tabelas e que é difundido pelas grandes plataformas e distribuidoras”, explica Tiago, que prossegue: “Quem nos pode dar a oportunidade de nos mostrarmos, é também quem nos mantém no lado escuro”.

As alternativas encontradas

Contudo, e tendo consciência dessa realidade, os membros da comunidade investem em formas de resolver a situação. No SoundCloud e no YouTube, DubstepGutter, The Dub Rebellion e MA Music são alguns dos principais canais de que os artistas se servem para promoverem as suas músicas.
Há sensivelmente um ano, surgiu uma nova e revolucionária forma de atrair público e ganhar mediatismo: um sistema que permite que qualquer pessoa descarregue gratuitamente uma música, se cumprir um conjunto de procedimentos, tais como seguir o artista em questão e gostar da música (por exemplo, no SoundCloud). Cumpridos os requisitos, a música poderá ser descarregada. Deste modo, o artista cresce e o público obtém o ficheiro que deseja.
Este simples mecanismo é, para Sekai e para os demais, um auxiliar importante na promoção do produtor: “Nós [os artistas] estamos a carregar essas músicas para que as pessoas as obtenham de graça. É sempre melhor para os fãs seguir e partilhar algo para o ter gratuitamente, do que pagar”.

A música eletrónica em Portugal

Em Portugal, a música eletrónica que fuja aos géneros celebrizados pela comunicação social está longe de se afirmar. Os festivais de verão vêm ganhando cada vez mais protagonismo no panorama artístico português, mas são poucos os que oferecem o palco a músicos menos conhecidos.
Para Tiago, “o primeiro passo é expor a multidão a novos nomes”. Nomes que, tendo uma reputação firmada no contexto internacional, são desconhecidos em Portugal. “Trazer, por exemplo, o Zomboy a um dos festivais de música eletrónica seria uma estratégia inteligente, já que ele é dos que melhor se promove e que tem a marca mais bem consolidada”. Sekai destaca ainda a importância de se valorizar o que é nacional: “Falando especialmente do caso português, devia ser prestada atenção aos produtores underground, de quem não me canso de falar. Temos um grande nome em ascensão, o Holly, que vai dando cartas além-fronteiras”.

Além da escassa publicidade feita aos estilos alternativos, outro problema encontrado é a falta de cursos para quem queira aprender a produzir música eletrónica. As soluções encontradas pelos aspirantes a produtores para resolver essa situação são a tentativa-erro e a pesquisa de tutoriais na Internet.
Sekai e os restantes membros da comunidade não fugiram à regra. Dada a complexidade envolvida na produção de uma peça de música eletrónica, é impossível criar um tema apenas com autodidatismo. Neste sentido, tutoriais e a experiência de outros produtores são a pedra-angular de quem ainda está a dar os primeiros passos no mundo da Electronica. Tiago Salvador dá a conhecer a sua experiência pessoal: “Da primeira vez que usei o FL Studio – software utilizado para produzir música – desisti quase imediatamente. Depois de nos ambientarmos, importa não parar de produzir, estabelecer contactos e enviar músicas para promotoras”.

O futuro da comunidade

Unidos por uma causa maior, os integrantes da comunidade vão caminhando “rumo a um sonho”. Projetos variados vão surgindo: Sekai lançou recentemente uma colaboração com Sex Whales, jovem talento israelita de 16 anos. Há ainda o curioso caso de Ramzoid (de quem se ouvirá falar em breve e por muitos anos), que, com outros jovens produtores, criou a editora discográfica Soda Island.

Os dados estão lançados. Bom conteúdo não falta, artistas com potencial também não: Ramzoid tem 18 anos, Alon Mor e Nasko têm ambos 19. Estes são apenas alguns exemplos, outros tantos podiam ter sido dados. Resta que os meios de difusão permitam que estes jovens se mostrem e que deixem crescer os estilos que vêm desenvolvendo. O seu sucesso é uma questão de tempo.

Texto: Nuno Martins

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