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Um Corpo Estranho falam ‘Música Por Música’ do disco “Pulso”
“Pulso” é o segundo álbum de originais dos Um Corpo Estranho.
Onde Quero Arder_Um Corpo Estranho

Um Corpo Estranho

Desafiámos João Mota e Pedro Franco a falar um pouco de cada tema deste novo trabalho, tendo-nos referido em entrevista (ler aqui) que cada canção passa por «várias fases e abordam a temática de um corpo estranho em várias situações, locais e de vários tipos de estado de espírito».

Vertigem
Um tema que parte de uma parábola sobre a ambição desmedida e a sua direta consequência. É uma reflexão sobre como realidade dos dias de hoje nos pressiona e nos apressa a alcançar metas sem prestar atenção às etapas e ao impacto que isso tem em nós e nos restantes que nos rodeiam. O culto do individualismo da era digital está a tornar-nos cada vez mais distantes uns dos outros e alimenta-nos da ilusão de que de alguma forma temos destaque. Por alguma razão surgiu-nos a ideia latente no mito de Ícaro, de como no fundo todos tentamos alcançar o sol sem estarmos devidamente equipados.

Se Houver Uma Chama
Este tema parte de uma nota introdutória ao tema seguinte, “onde quero arder”, servindo de metáfora a uma espécie de limbo, ou de sala de espera antes da queda na canção em que vai desaguar. Apesar de ambos os temas terem nascido de linhas de banjo siamesas, achámos que fariam mais sentido separa-los à nascença, por motivos de respiração e até porque tínhamos vontade de contagiar o disco com a vertente de trabalho que temos vindo a desenvolver a nível instrumental tais como o bailado “A Almofada da Paula” (baseado na obra da pintora Paula Rego), ou “A velha ampulheta”. Com o tema “Se Houver uma Chama” tentámos trazer um pouco desse universo, mais ambiental ou experimental, para este disco, uma vez que já se entranhou em nós e muito provavelmente será para continuar.

Onde Quero Arder
“Onde Quero Arder” é uma canção de amor, se é que que o género ainda existe. É uma coisa transversal a toda a gente, quando se sente alguma coisa de forma descontrolada por alguém, quando nos apaixonamos de uma forma quase tão violenta que parece que o mundo está para acabar e tudo deixa de ter importância. É uma espécie de auto-combustão que acontece quando o coração toma o rumo das nossas acções.

Scarlett
Somos fãs dos clássicos de cinema. Nomes como Humphrey Bogart e Lauren Bacall povoam o nosso imaginário. Quisemos explorar esse tipo de universo neste tema, o burlesco enfumaçado, a femme fatal e o homem elegante, talvez com um cabaret dos anos 20 idealizado como fundo. Lembrou-nos a forma como a Jessica Rabit entra no filme “Quem tramou Roger Rabit”, o que nos contagiou a tentar recriar esse arquétipo de mulher nesta canção.

Babel
Tentamos sempre evitar o pessimismo, mas é algo que acaba por escorregar para as canções que escrevemos. Este tema é um exemplo disso, é um descontentamento com a letargia generalizada que sentimos por vezes nos dias de hoje. Ao mesmo tempo que somos inexplicavelmente dotados de esperança e temos meios para alcançar o impossível, continuamos presos a ideias e hábitos que não nos permitem evoluir.

A Seiva
“A Seiva” é uma alegoria em torno das desigualdades sociais e de como elas se parecem agravar, ou pelo menos man- terem-se inalteráveis com o passar do tempo, como se houvesse um padrão de repetição.
Sem querer acabou por se tornar num tema de reflexão histórica e de como a espécie humana tem repetido os mesmos erros ao longo do seu percurso.

Estranho à Terra
Achamos interessante explorar a velha mitologia portuguesa, de que somos um povo de mar e que é dele que poderá vir algum tipo de “salvação”. Penso que somos bastante “pessoanos” nesse aspecto. Pondo de parte a mitologia, é algo com que nos identificamos, já que somos um pequeno país que sempre se sentiu grande face ao restante mundo, pela nossa história e pelos nossos valores. Mas talvez ainda sejamos os nossos próprios inimigos, porque voltamos muitas vezes as costas ao que nos valoriza como povo. O mar acaba por ser uma metáfora às nossas ínfimas possibilidades, assim ultrapassemos os nossos complexos.

Vigília
“Vigília” fala sobre perda, sobre saudade e sobre a esperança no retorno. De forma mais ou menos irreversível, todos já perdemos alguém e este tema aborda esse tipo de sentimento. As pessoas que partem das nossas vidas deixam uma presença nas coisas e em nós, algo que nos remete para uma expectativa inexplicável em voltarmos a vê-las, em que tudo volte a ser como era.

A Metade
“A Metade” é um monólogo interior, um pequeno ensaio sobre a contradição e sobre as nossas lutas interiores. Um Corpo Estranho é muito isso também, é algo que nasce da cabeça de duas pessoas que por vezes se confunde numa. Este tema nasce de uma experiência de harmonias vocais e não era para ser uma canção. Temos muitos exemplos disso e muitas vezes jogamos com a surpresa entre os dois, quando um dá corpo a uma ideia que o outro tinha e não sabia resolver. Parte do nosso método de composição vem dessa fricção, em tomar caminhos opostos que depois se afunilam numa outra coisa desconhecida para os dois.

Pulso
É um tema que reflete a mudança, ou pelo menos a vontade de mudar. Penso que é uma ideia que está latente no nos- so trabalho e já tinha sido abordada no álbum anterior. A questão do tempo e do efeito que tem em nós. Sentirmos que há uma mudança natural em tudo o que nos rodeia e que por vezes nos falta aprender com isso, por estarmos muitas vezes presos a ideias estáticas que nos estagnam e que não nos permitem avançar. Em “Pulso” abordamos o que de mais intrínseco nos fala, tomar consciência de que estamos vivos e que fazemos parte de tudo o que muda, que é necessário tomar as rédeas da nossa vida e apreender que a corrente muda de direção sem aviso prévio.

Onde os Lobos Dormem
Achámos que este álbum devia terminar com um “lullaby”, uma espécie de entrega ao silêncio e ao repouso. Raramente temos consciência imediata do que falamos nas canções. Acabamos por sentir que em cada uma delas parecemos prender pequenas tempestades que não têm um foco concreto. Decidimos fechar com um tema de apaziguamento com isso, uma espécie de bonança e de fuga a essa turbulência.

Um Corpo Estranho — «Gostávamos de ser uma dessas bandas de continuidade»

Um Corpo Estranho «Gostávamos de ser uma dessas bandas de continuidade»

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