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Jimmy P «Fazia música para atuar nos concertos no boteco»

Jimmy P apresenta “Essência”, o novo disco lançado em abril, nos principais festivais de verão nacionais e o arranque da temporada é já este sábado, 25 de junho, no Sumol Summer Fest, num concerto especial que vai contar com a presença de Valete e será transmitido em direto pela Mega Hits.

Recordamos a entrevista que Jimmy P nos concedeu para a revista n.º 5 Made in Portugal, na qual foi capa, onde o rapper do Porto falou da sua carreira, do mais recente álbum e dos projetos para o futuro.

Entrevista com Jimmy P

Aquando da edição do teu primeiro álbum tinhas como objectivo lançares dois álbuns nos dois anos seguintes, com o propósito de dares a conhecer a tua música ao público. Três anos depois, e com três álbuns no mercado, consideras que o objetivo foi/tem sido cumprido?
Não exatamente três anos, por acaso passou um bocadinho mais, o meu objetivo era, quando eu fiz o meu primeiro álbum fazer uma trilogia, ou seja o que implica que houvesse um seguimento em todos os álbuns, mas com o tempo percebi que isso era uma coisa que não fazia sentido porque cada álbum tinha particularidades, desde a forma como eles foram produzidos, à forma como eles aconteceram e até à roupagem e o intuito de cada um deles. Acabei por cumprir esse objetivo de fazer três discos em três anos e cerca de seis ou sete meses, mas não de fazer uma trilogia, porque os três álbuns são muito diferentes uns dos outros e não fazia sentido perpetuar essa ideia, mas sim perpetuar a ideia de fazer três discos em três anos.

Consideras que apesar de não ter sido uma trilogia que o teu objetivo foi alcançado?
Sim! A ideia de fazer três discos em três anos tinha como objetivo mostrar-me ao público, porque acho, no meu primeiro álbum muito pouca gente me conhecia e eu queria mostrar-me, dar-me a conhecer no mercado, como um artista emergente e com o seu espaço, e tu não consegues fazer isso com um álbum, precisas de muita música, fazer coisas, fazer concertos e lá está, isso só se consegue ao fazer-se álbuns. Os álbuns foram a ferramenta para conseguir isso. Nesse sentido acho que o objetivo de fazer três álbuns cumpriu-se e os outros objetivos inerentes à produção desses três álbuns também se cumpriram.

 Jimmy P — O meio do hip-hop é um meio com alguns preconceitos e extremamente conservador

Três anos depois tens consolidado uma imensa legião de seguidores, dás inúmeros concertos por ano e inclusive és cabeça de cartaz nalguns festivais nacionais, tens ganho alguns prémios… Tudo isto superou as tuas expectativas em relação ao que há três anos atrás imaginavas?
Acho que tudo isso são consequências… O meu objetivo era apenas tentar fazer boa música, ou fazer música que as pessoas gostassem de ouvir. Eu sempre gostei de ouvir géneros musicais super melódicos e harmoniosos. Sendo um artista que faz rap e que também faz r&b, quis trazer um bocado dessa harmonia e melodia para o meu universo, considerando que o meio do hip-hop é um meio com alguns preconceitos e extremamente conservador, essa aceitação não foi fácil logo à partida. Mas fico feliz porque a minha preocupação inicial, foi apenas e só, tentar fazer boa música, depois o resto são consequências. As pessoas gostarem, eu poder fazer concertos, ter pessoas que me seguem e todas as outras coisas que acontecem à volta, acho que acabam por ser uma consequência disso, porque o ponto de partida acho que é sempre a música, porque se as pessoas não gostarem da música pode acontecer tudo o resto, mas não é orgânico e acho que no meu caso e no nosso caso como equipa, o que é bonito é que isto foi um fenómeno totalmente orgânico, não foi nada premeditado. Por exemplo, “vamos fazer um single porque isto tem que tocar nas rádios”, eu comecei a tocar nas rádios há um ano e meio atrás, o resto do tempo nem era um artista de rádio, portanto foi uma coisa que foi acontecendo de forma perfeitamente orgânica e natural.

Eu sei perfeitamente qual é o tipo de carreira que eu pretendo seguir e qual é o tipo de artista que eu pretendo ser

Editaste em abril um novo trabalho. Este novo álbum é a “Essência” do que sempre desejaste fazer?
Sim, isto tem sobretudo a ver com a música que eu pretendo fazer, todo este tempo, todo este percurso… Digamos que foi um processo de maturação e hoje em dia eu sei perfeitamente qual é o tipo de carreira que pretendo seguir e qual é o tipo de artista que pretendo ser, e é o que encontras aqui neste disco — precisamente por isso é que ele se chama “Essência” —, são os géneros e os estilos onde eu me sinto mais à vontade e onde com os estilos que gosto de praticar, que são o rap e o r&b. Gosto de fazer bons refrões, que as pessoas cantem, refrões orelhudos e de fazer bons textos, bons raps, mas revestidos de harmonia e melodia. Podemos considerar um rap mais fácil de se ouvir, mais musical. Cheguei a um ponto em que sei que é isto que quero fazer.

Esta fase de maturação e consciência daquilo que pretendes enquanto artista tem a ver com o percurso já percorrido, mas também com as tuas raízes e ao tempo em que viveste em França?
Tem a ver em parte com o que eu cresci a ouvir. Passei toda a minha adolescência lá e, inevitavelmente, tudo aquilo que consumi acabou por definir o que sou como pessoa e como artista também. Lá está, foi esta experiência que me permitiu chegar aqui onde estou e no fundo são as duas coisas a convergir.

Jimmy P - rapper portuense porto - entrevista - hip hopNeste novo álbum contas com a participação de Diogo Piçarra, Terra Preta, Fábia Maia e Dji Tafinha. Como surgiram estas participações?
Ao contrário daquilo que aconteceu nos outros álbuns, estas participações são todas improváveis, porque nos meus outros trabalhos colaborei sempre com artistas que conheço pessoalmente, pessoas com quem tenho uma relação pessoal, que é o caso do Valete e de todos os outros artistas. Aqui eu não conhecia nenhum deles pessoalmente, simplesmente tratava-se de artistas cuja música eu aprecio, que é o caso do Terra Preta, que é um artista brasileiro de São Paulo, que na minha opinião cruza o rap e o r&b como ninguém e é por isso que sou muito fã do trabalho dele, que conheço à cerca de três anos. Também tem o Dji Tafinha de Angola, que já conheço há uns dez anos pelo menos, que também não o conhecia pessoalmente e esse primeiro contacto surgiu quando ele veio a Portugal para gravar comigo. A Fábia Maia é uma miúda que eu descobri no youtube. Ela faz cores, pega em temas de rap e faz esses temas cantados à guitarra, ou seja ela apropria-se dos temas e faz versões novas. Quando eu a ouvi pela primeira vez foi com a música “Drunfos” do Halloween e pensei logo que tinha que gravar com ela. É absolutamente incrível! E o Diogo Piçarra é um artista que também já acompanho há algum tempo.
Fico feliz porque todos eles também gostam do meu trabalho e ao aceitaram o convite foi super gratificante e acho que o resultado final foi satisfatório para todo a gente.

Já que estamos a falar de colaborações, tens alguém em especial que gostasses de colaborar?
Muita gente! Aqui em Portugal gostava muito de gravar com a Sara Tavares e com o Rui Veloso, acho que naquilo que é o universo cultural da música portuguesa, cada um deles no seu registo são dos melhores, mas claro isto é a minha opinião pessoal. A Sara tem uma abertura muito grande em participar noutros projectos e por isso acho que é possível isso acontecer.
Apesar de ter nascido no sul, vivo no Porto há dez anos, para todos os efeitos sou um artista do Porto e, para mim, o maior artista da cidade do Porto é o Rui Veloso. É de longe aquele que mais gosto, portanto gostava muito de gravar qualquer coisa com ele.

A música que eu faço é super honesta, super transparente e super sincera e acaba por ser um reflexo da pessoa que eu sou

As tuas canções falam muito de esperança e de coragem. O facto de teres um núcleo de fãs mais adolescente faz com que sintas alguma responsabilidade na mensagem que lhes passas?
Normalmente o que acontece é: tens dois tipos de artistas, aqueles que são muito bons a criar cenários, personagens, a personificar, a viajar, a criar universos e coisas que não são a realidade e depois tens os outros que não conseguem fazer isso, como eu, e simplesmente conseguem falar de coisas que são reais e que lhes dizem respeito. A música que eu faço é super honesta, super transparente e super sincera e acaba por ser um reflexo da pessoa que eu sou, ou seja, não tenho esse filtro de dizer “olha agora tenho que ter cuidado porque estou a falar para pessoas que são adolescentes”. O filtro que tenho é nunca desrespeitar os meus valores e a educação ao abrigo da qual fui criado. Por exemplo, o rap apesar de todas as coisas boas, não deixa de ser ume género extremamente preconceituoso, porque há um discurso muito machista e uma tentativa permanente de diminuir as mulheres ou os homossexuais e isso é uma coisa que eu não pretendo fazer, de todo! Não foi assim que fui criado e educado. Se há uma coisa que faço é sim combater esse tipo de coisas, considerando e sabendo que o meu público é definitivamente um público jovem.

Quanto a concertos, tens inúmeros já agendados para o verão. O que pode o público esperar dos próximos espetáculos? Existem novidades?
Sim, tudo é novidade neste concerto, até porque para preparar a apresentação deste álbum reformulamos o espetáculo a todos os níveis. Nos últimos três anos a formação da banda era bateria, baixo, guitarra e teclas e era tudo com instrumentos acústicos.
Sendo o rap uma linguagem digital era difícil executar musicalmente ao vivo aquilo que eu fazia no disco, então a banda tinha que se adaptar ao disco. Assim, fizemos um investimento grande em material de maneira a podermos tocar o som dos discos ao vivo, portanto o setup que temos agora é completamente diferente daquilo que fiz até ao verão passado, que foi o final da nossa tourné. Agora a bateria é digital, tem uns modelos digitais, para disparar os sons do disco, tem teclas e guitarra e a parte visual do concerto não tem nada a ver com aquilo que era antes, ou seja, a experiência musical, visual, sensorial. Acho que será incomparavelmente melhor do que aquilo que era até há seis meses atrás. Foi um upgrade gigante.

Tendo em consideração esta sequência de três álbuns em três anos, o teu público pode esperar um álbum novo no próximo ano?
Não, de maneira alguma, até porque também sinto que cheguei a uma altura que não posso continuar a debitar música desta forma, porque Jimmy P - rapper porto - entrevista - hip hop - biografia - carreira novo álbumtambém não me quero estar a repetir. Como artista quero parar um bocado. Pretendo fazer um quarto álbum, mas quero que seja um álbum melhor do que estes três, com outras condições, colaborar com outros produtores. Aqui por exemplo foi o mesmo produtor que fez o álbum todo, no próximo já não quero fazer isso. Gostei desta experiência, mas, no próximo trabalho, quero estar com um produtor que eu aprecio e estar duas ou três semanas com ele, em estúdio, para produzirmos uma música, mas um “senhor tema”. Acabado esse tema quero estar com outro produtor, porque isso enriquece o álbum. Eu fiz um bocado esta experiência durante os três álbuns. No meu primeiro álbum tive cinco ou seis produtores diferentes, no segundo tive menos e neste quis fazer só com este produtor, porque o álbum tinha um propósito específico. Depois disto tudo cheguei à conclusão que teria de ser assim na próxima vez, para fazer um álbum com a diversidade que pretendo. Para mim enquanto artista desafia-me a sair da minha zona de conforto e a tentar fazer coisas melhores e que não sejam previsíveis, quero fazer algo que surpreenda e que as pessoas digam, “ok isto está diferente mas fogo esta fixe, está porreiro”.
Por exemplo, há dois meses pusemos o álbum todo na internet e o tema que fiz com o Diogo Piçarra, que é um tema extremamente pessoal, que fala sobre uma pessoa que eu perdi em novembro de 2015, está quase a atingir um milhão de visualizações. Lá está, quando é premeditado, existe sempre o objectivo que as músicas passem na rádio e, para mim, o processo é mais bonito e mais agradável quando tu simplesmente fazes a música e as pessoas reagem à música naturalmente.

Era impensável eu estar a fazer música e considerar que podia ser headliner num festival, fazia música para atuar nos concertos no boteco

Atualmente, como avalias o hip-hop em Portugal?
Honestamente, acho que nunca se viveu um momento tão bom como agora, porque eu não me lembro de alguma vez as pessoas consumirem tanto rap, como se está a consumir agora. O rap há três ou quatro anos, tornou-se um fenómeno de massas sem ser uma grande indústria. Eu faço rap há uns bons dez/onze anos e nessa altura para mim era impensável estar a fazer música e considerar que podia ser headliner num festival, fazia música para atuar nos concertos no boteco.

Jimmy P “A internet permitiu que o hip-hop tivesse muito mais alcance”

O que é que achas que contribuiu para essa alteração?
Definitivamente a internet, não há como negar. A internet permitiu que o hip-hop tivesse muito mais alcance. Por exemplo, eu sou de uma geração cujos ídolos eram pessoas que falavam em inglês, hoje os ídolos dos jovens que falámos há pouco são artistas que cantam em português e isso facilita muito, porque estás a ouvir alguém que fala a mesma língua que tu, a mesma linguagem, tem os mesmos desafios, que vive a mesma realidade que tu. Não era como antes quando nós estávamos desfasados dos americanos ou dos ingleses. Agora há muita diversidade e isso é saudável, e sinónimo de riqueza, quanto mais coisas novas houver e mais pessoas a produzirem, mais escolha há para as pessoas ouvirem e hoje em dia os grandes festivais, como o Sudoeste, Sumol Summer Fest, Meo Marés Vivas, têm artistas de hip-hop, sejam eles headliner ou de uma curadoria. O hip-hop é um movimento cultural, um fenómeno permanente que acabou por explodir recentemente.

Entrevista: Sofia Reis

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