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Linda Martini «Nós tentámos sempre em todos os discos que fizemos não nos repetir»
“Sirumba” o novo álbum dos Linda Martini, editado a 1 de abril, entrou diretamente para o 1.º lugar do Top nacional de vendas dos discos mais vendidos em Portugal.

Antes do lançamento do disco estivemos à conversa com André Henriques, um dos elementos dos Linda Martini, e questionado se tinham expectativas de um primeiro lugar deste novo disco no top de vendas, André Henriques referiu que “nós nunca fazemos assim grandes cálculos, a nossa principal preocupação é mesmo fazer a música que nos soa bem”, apesar de confessar que ficam curiosos e “a roer as unhas, na expectativa” de como o público receberá o disco, e eis que o público recebeu muito bem o disco. Se o álbum anterior do grupo “Turbo Lento” tinha entrado diretamente para o 2.º lugar dos discos mais vendidos, “Sirumba” chegou ao topo, sendo a prova de que este é sem dúvida um dos melhores discos da banda.
Este é o culminar de semanas de trabalho em que contemplou o Coliseu de Lisboa num momento que atraiu muita atenção mediática.

Leia o resto da entrevista realizada a André Henriques dos Linda Martini, que foram o principal destaque da anterior edição da revista online MIP.

Linda Martini em entrevista

Linda Martini

Não houve uma ideia moralista de falar em polícias e ladrões ou ter qualquer tipo de intervenção na sociedade, o objetivo é mais pessoal

“Sirumba” foi um jogo da nossa infância e pré adolescência. A escolha deste nome deve-se ao facto de todos vocês o terem jogado ou porque se pode transpor a sua moral para a sociedade em que vivemos?
O nome foi muito imediato, antes de ser nome do álbum, é nome da primeira música do disco, e lembramo-nos disso, porque vamos tendo sempre alguns nomes e conceitos que todos nós gostamos em carteira e que depois são eleitos ou não, quando chega ao momento de escrever as músicas ou pensar em títulos.
Este nome surgiu mais por nos lembrar isso, um jogo da infância, sem pensar muito na moral dos polícias e dos ladrões ou quem ganha o jogo. Era um jogo que estava na escola preparatória, onde nós os quatro andámos no início dos anos 90 e todos jogámos esse jogo, portanto desde logo houve consenso entre nós, todos se lembram com alguma saudade desse jogo.
Quanto à letra do tema “Sirumba” – usando aqui uma metáfora -, o objetivo é chegar ao outro lado, e passares pelos obstáculos, neste caso os tais policias que estão nos corredores e que te vão tentando impedir que passes e isso acaba por ser uma analogia com muitas das coisas que acontecem na tua vida, desde os tempos de estudos, às relações que vais tendo, aos empregos pelos quais vais passando. Há coisas que vais tentando cumprir e vais-te deparando com algumas dificuldades, algumas externas a ti, outras que às vezes estão na tua cabeça e que te vão impedindo de chegar ao outro lado, de completar esses teus objetivos e a letra foi construída um bocado nessa perspetiva. Não houve uma ideia moralista de falar em polícias e ladrões ou ter qualquer tipo de intervenção na sociedade, objetivo é mais pessoal.

Nós tentámos sempre em todos os discos que fizemos não nos repetir

“10 Tostões” foi o primeiro tema que tocaram depois de “Turbo Lento” e vocês já revelaram que de certa forma, ele serviu de ponte para o “Sirumba” e citando o André “soava a nós, mas consegue-se perceber tudo”. Significa que andavam à procura de uma nova sonoridade?
Sim, é um bocado transversal ao resto do nosso percurso, nós tentámos sempre em todos os discos que fizemos não nos repetir, tentámos encontrar soluções e formas de nos exprimirmos e que de alguma forma fossem mostrando facetas diferentes e isso é reconhecível. O nosso segundo disco, o “Casa Ocupada” é muito diferente do primeiro disco, tal como foram sendo os restantes. E neste houve de facto uma procura, tal como nos outros, de soar a uma coisa diferente. Somos sempre os mesmos quatro que compõem e que tocam, portanto há sempre alguma coisa de reconhecível no nosso trabalho e vai sempre existir. “10 Tostões” foi algo muito espontâneo, foi isso que tu disseste, fui eu e o Pedro no quarto dele, não havia a confusão de salas de ensaio, de barulho e toda a gente ao mesmo tempo então o que ela (a musica “10 tostões) nos ensinou foi isso, que às vezes com contenção podemos chegar ao mesmo sítio mas usado recursos diferentes.

Quais foram as vossas influências musicais para “Sirumba”?
É difícil dizer… sendo que somos quatro, todos ouvimos muita coisa, é difícil encontrar algo que seja comum aos quatro, é difícil encontrar um nome que seja muito influente para os quatro na produção deste disco. Há um nome que temos citado algumas vezes que é o Tim Maia, um cantor brasileiro que vem de uma onda mais soul/funk, que não tem muito a ver com o que encontras neste disco, mas que foi muito influente pelo menos para mim, quando estávamos a fazer o disco, mais no contexto das melodias, dos refrões, na forma como ele utilizava as harmonias de voz, isso era uma coisa que ouvimos muito. Se fores ouvir a discografia dele vais ouvir muito pouco contato com “Sirumba”, mas de alguma forma influenciou-me a procurar outras formas de cantar, para tentar sair um bocadinho fora do que fazia antes.

Há uma tranquilidade, mas é uma tranquilidade aparente

Neste novo álbum, os instrumentos dão espaço uns aos outros, nos álbuns anteriores pareciam mostrar mais ansiedade, revolta, confusão… agora surgem músicas com instrumentais que se respeitam, sem tantas distorções. É uma prova de que agora estão mais calmos, mais tranquilos?
sirumba_lindamartini_discoSim, há alguma tranquilidade mais aparente, porque houve essa intenção de não estarmos sempre no vermelho, naquele limite da distorção e toda a gente em cima a todo o momento, isso era uma coisa que nós explorámos muito nos discos anteriores, apesar de também termos músicas mais calmas e continua a ser uma coisa que nos caracteriza ao vivo.
Foi de facto uma coisa que aprendemos com a música “10 Tostões”, das coisas não se comerem umas às outras e perceber-se de alguma forma os pormenores que cada um vai fazendo, por isso é que a voz está um pouco mais á frente, já que estou a cantar faz sentido que as pessoas percebam o texto que está a ser dito e o mesmo foi aplicado aos instrumentos. Diria que há uma tranquilidade, mas é uma tranquilidade aparente, porque há menos distorção no geral, isso é um ponto evidente, mas o trabalho das guitarras e as harmonias todas é muito exigente até é muito mais complexo do que coisas que fizemos no passado, só que no passado dá-te essa ideia de complexidade, mas é só porque o som está mais enrolado, está muita coisa a acontecer em simultâneo e as coisas estão todas a gritar. Desta vez as coisas foram surgindo, e fomos fazendo assim, foi um caminho que encontrámos para fazer as canções soarem de uma forma diferente.

Um disco é como tirares hoje uma fotografia de ti ou dos teus amigos e daqui a um ano, olhas para a fotografia e vão estar todos muito diferentes

Em “Sirumba” encontraram o vosso som? Consideram que nele se exprimem melhor?
Cada disco acaba por refletir um momento, um disco é como tirares hoje uma fotografia de ti ou dos teus amigos, e daqui a um ano olhas para a fotografia e vão estar todos muito diferentes e fazer um disco é um bocado isso. Foi aí que sentimos que ajudava as músicas que tínhamos feito, e também em conjunto com o Makoto e com o Fábio, que foram os produtores do disco, foi aquilo que sentimos que valorizava este conjunto de canções, daqui a um ano quando começarmos a compor para outro disco de certeza que também vamos procurar fazer uma coisa diferente, portanto não sei se será este o caminho que vamos fazer ou se vamos seguir por uma outra abordagem. Desta vez foi isto que fez sentido, e estamos muito contentes com a forma como as musicas estão a soar, mas nada é escrito sobre pedra e não te posso dizer que agora todos os discos vão soar a isto.

Fixaram estúdio e sala de ensaios no Haus. Essa estabilidade e possibilidade de terem o vosso próprio ritmo e espaço está espelhado em “Sirumba”?
Sim, essa ideia de espaço foi essencial. Acho é o que o que caracteriza este disco, como já falamos, esta ideia do espaço, cada instrumento perceber-se e ocupar o seu devido espaço. E também a interpretação de espaço temporal, nunca tivemos tanto tempo de estúdio para gravar, nós tivemos praticamente o mês de janeiro só concentrados a gravar e produzir o disco, enquanto que das outras vezes tivemos muito menos tempo. E a própria composição também foi muito mais alargada e calhou bem neste disco, também tivemos mais disponibilidade nas nossas vidas particulares e conseguimos fazer quase um horário de escritório, das nove às cinco, tínhamos dias inteiros para dedicar em exclusivo à composição e no passado as coisas nunca tinham sido assim, nós ensaiávamos uma vez por semana e normalmente ao final do dia, já cansados de uma jornada de trabalho, portanto já muito mastigados, muitas vezes o que acontece é que quando te sentas com a banda para tocar ao final do dia, muitas vezes às onze da noite é difícil de sair da tua zona de conforto, por muito que queiras fazer coisas diferentes. O que pode mudar isso é a questão do tempo, a partir do momento que consegues ter mais tempo, ### um espaço só para ti, teres a guitarra e amplificador sempre ali, para pegares e tocares, acaba por facilitar e tirar-te aquele peso de cima. Tivemos dias onde saíam coisas, dias em que não saía nada, mas fomos tendo tempo para lidar com as frustrações e com as alegrias, até ficarmos contentes com o produto final.

Linda Martini — Felizmente a música portuguesa está de boa saúde

São mencionados como banda mais relevante da vossa geração, a nível nacional. O que têm a dizer sobre esse título?
Para quem está na banda, são coisas que tu lês e ficas sempre muito lisonjeado, mas são coisas de nós não conseguimos avaliar. Seria preciso um distanciamento de nós próprios que nós não temos. Há muita gente hoje em dia, e felizmente a música portuguesa está de boa saúde, que contribui tanto ou mais do que nós, para puxar as canções e forma de fazer música em Portugal para outro patamar. Fico obviamente lisonjeado do público e das pessoas ligadas à crítica reconhecerem que nós podemos ter algum papel nisso, mas isso para nós é sempre um bocadinho difícil de ajuizar, porque quando se vai para uma sala de ensaios, não se está a pensar que se vai mudar a forma como a geração atual ouve música ou a forma como a música é feita em Portugal.

Vieram no panorama punk-hardcore, como vêm atualmente esse mesmo panorama?
Nós felizmente guardamos muitos bons amigos desde essa altura, pessoas que continuam muito ativas na comunidade hardcore e continuam a ter bandas e a tocar. O hardcore foi na altura e continua a ser hoje em dia, um nicho de mercado. O nicho tem uma coisa boa, que é um público muito fiel e isso permite a muitas dessas bandas fazerem um circuito internacional e tocarem em países onde nós nunca tocámos e terem concertos esgotadíssimos em todos os lados do mundo, portanto continua a estar de boa saúde.
A cena que nós conhecíamos ou quando éramos putos, que costumávamos frequentar em Lisboa, acabou por se desintegrar ao pouco, porque coincidiu com os espaços que existiam para as bandas tocarem deixarem de estar ativos, algumas bandas que eram muito icónicas também acabaram, porque as pessoas que estavam a entrar idade adulta começam a ter empregos, a ter que pagar contas… Daquilo que eu sei, das pessoas com quem vou privando, que guardo desde essa altura, é que as coisas continuam também muito vivas e a prova disso são por exemplo os For The Glory, e os Devil In Me, que são duas bandas portuguesas de hardcore, que tocam em todo o lado na Europa e que tem público fiel em todos os países por onde passam. Se calhar aqui têm pouca expressão ou a maioria do público não as conhece, mas elas continuam a ter um circuito para tocar e continuam a ter muito público para as ver.

Entrevista realizada por: Sofia Reis

[Fotos do concerto dos Linda Martini no Coliseu de Lisboa © Luís Flôres]

 

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