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Videoclip | “Old Habits” dos Minta & The Brook Trout

Minta & The Brook Trout divulgaram no dia do concerto na ZDB, na passada 6ª feira, o vídeo bem veranil para “Old Habits”, o slow mais slow do “SLOW”.
Realizado pelo João Nicolau – que, entre outras coisas, fez uma lindíssima e mui premiada longa-metragem chamada John From.

Entretanto, Samuel Úria redige um “tratado sobre beleza” que podia ser também um “tratado sobre a inveja” que aqui partilhamos:

Nunca redigi um tratado sobre beleza, nem sabia que queria. Mas agora este espaço confuso que fica entre o auscultador no ouvido direito e o auscultador no ouvido esquerdo está preenchido com o “Slow” – entorpecido por coisas bonitas, como tratar-me delas senão com um tratado?

Se parece que acabei de invocar a beleza enquanto maleita, é só exagero retórico do entusiasmo; uma urgência em espalhar a boa-nova do último disco de Minta & The Brook Trout. Pressa em falar do “Slow”. Não deixa de ser curiosa esta contradição sugerida por um álbum tão coeso, mas ora aí está: nada do que aqui é plácido é impávido. Nada do que aqui é harmonioso (e tudo é extraordinariamente harmonioso) se furta ao vórtice emocional. “Slow” tanto é o locus amoenus da capa do José Feitor, o local apetecível nas guitarras do Bruno Pernadas que jogam e se mesclam com os teclados da Margarida Campelo, como é um contundente “Back the hell down” cantado com tóxica serenidade por uma das vozes mais bonitas que conheço – Francisca Cortesão straight outta Compton? “Slow” tanto é cúmulo do equilíbrio, com a lisura da superdotada Mariana Ricardo a servir as canções da Francisca, ou a lição cirúrgica de Quanto-Baste nas baquetas do Nuno Pessoa, como é o desconcerto de aching limbs, matching headaches, crooked tiles, bracelets and bangles. Um turbilhão de coisas a confluir na mais terna bonança, e assim já nem sei se Minta & The Brook Trout é banda ou anticiclone.

Chama-se “rara” à beleza que mais queremos elogiar, mas até isso “Slow” contraria. Não se trata duma beleza rara. Na verdade trata-se de uma beleza igual a tudo o que é belo. Beleza que não se encolhe porque é universal, indesmentível e garantida; reconhece-se imediatamente e somos arrebatados, ao invés de perdermos tempo a identificar-lhe os exotismos. Salta-se o estranhar e entranha-se logo, entranha-se muito. Como torcer o nariz ao que os ouvidos tão bem acolhem? Não, não se trata duma beleza rara, é muito mais do que isso. “Slow” não é um disco especialmente bonito, é um disco que nos garante que a beleza é especial.

Isto também podia ser um tratado sobre a inveja. Não há projecto da Francisca Cortesão que não me faça pensar “um dia gostava de gravar um disco e experimentar estes notáveis – tropa de elite de bom gosto e sensibilidade musicais – nos arranjos e na banda de suporte”. “Slow” foi mais um potente acicate nesse desejo e, agora reparo, tem alguma piada esta minha vontade de sobressair a reboque de Minta & The Brook Trout. É que se há coisa que “Slow” prova, com as canções, os intérpretes, as histórias, os ambientes, é que lá nada sobressai. Tudo nos sobrefica.

Samuel Úria, Junho de 2016

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